
Os verdadeiros.
O 2 de janeiro foi instituído o ‘Dia do Alienado’.
E como se há de saber quem tem direito às homenagens do dia?
É fácil. Todos aqueles que na véspera acreditaram na fraternidade universal e no feliz ano novo…”
Fonte: O Malho, 23/10/1926, Hemeroteca/BN.
Que imagem você tem do hospício da Praia Vermelha? De um “cemitério dos vivos”, como escreveu Lima Barreto? Um lugar sombrio, cheio de almas penadas em sofrimento?
Qual não foi a nossa surpresa ao descobrir que nem tudo era dor e desvario no Hospício Nacional. Imagina que os doentes mentais tinham um dia só deles, comemorado com muitos festejos. O “Dia do Alienado” era levado a sério pelos médicos do Hospício Nacional. Aliás, foi instituído por eles, no dia 2 de janeiro.
Essa história começou por iniciativa do Dr. Aldemar de Andrade, que propôs a criação de um dia do ano para festejar os alienados. A simpática ideia ganhou o entusiasmo de médicos, enfermeiros e outros funcionários. Sem falar na alegria dos pacientes, que teriam um dia só para eles.
Uma comissão era formada, meses antes, para organizar o grande evento, mobilizar a sociedade, angariar recursos e garantir a festa. Muitos fabricantes e comerciantes colaboravam com doações em dinheiro e recursos materiais – como laticínios, doces, chocolates, biscoitos etc.
Os pátios do hospício eram enfeitados com bandeirolas. Tudo era organizado para que os doentes e visitantes pudessem sentar ao ar livre, acompanhar as apresentações de poesia, de música, jogos etc. A festa começava logo cedo, com uma missa, e seguia o dia inteiro. Não faltava divertimento: distribuição de café e doces, bandas de músicas, provas esportivas (corrida de saco, briga de galo, corrida de obstáculos, quebra pote, pau de sebo), com prêmios.
A primeira comemoração ocorreu em 2 de janeiro de 1926. Nesse dia, os pacientes e visitantes assistiram às primeiras sessões de cinema no hospício. Só filmes alegres. Imagina a surpresa!
Mas você acha que todo mundo entrou na brincadeira? Claro que não! Um senhor, W. F., publicou uma crítica à ideia, na revista Vida Policial, em “O Dia dos Malucos”. Por suas palavras: “Em se tratando de tolices, essa é daquelas de tirar o chapéu. (…) E não faltará por aí quem, em tal dia, não pratique pela via pública as maiores loucuras e estropelias, tendo como única justificativa: hoje é o meu dia, é dia dos malucos”.
Afinal, se “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”, por que não comemorar? O que você acha?
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Referências:
O Dia do Alienado (O Imparcial, 04/01/1927, p. 1).
O Dia do Alienado (Correio da Manhã, 09/12/1926, p. 8).
Temos também o Dia do Alienado… (Correio da Manhã, 03/01/1926, p. 3).
“O Dia do Alienado” (O Imparcial, 09/10/1926, p. 1).
O Dia dos Malucos (Vida Policial, 16/01/1926, p. 21).
Leia:
http://www.jornalnoroeste.com/pagina/penso-logo-existo/de-medico-e-louco-todo-mundo-tem-um-pouco
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